Proposta de Artigo de Opinião

Queridos alunos, tendo em vista as discussões propostas em suas aulas de Gramática sobre as palavras “policitacamente incorretas” presentes nos dicionários e  em nossas aulas de Redação sobre  textos opinitivos/argumentativos, leiam a proposta de texto abaixo, com muita atenção, para cumprir a tarefa comunicativa.

Proposta de Texto

Imagine-se no lugar de estudioso (a) da linguagem, que, motivado (a) pela leitura da reportagem “Onde está o verbete ‘bom-senso’?” e do artigo de opinião “Vamos queimar os dicionários”, decide posicionar-se sobre a questão abordada nesses textos por meio de um artigo de opinião. Seu texto deverá, necessariamente, apresentar:

  • A posição da escritora Lya Luft sobre a exclusão de palavras presentes nos dicionários, que poderiam revelar preconceito;
  • De que forma a exclusão das palavras “politicamente incorretas” poderia “assassinar a cultura brasileira”, segundo a opinião do lexicógrafo e gramático Evanildo Bechara.

 

Texto I

Onde está o verbete “bom-senso”?

O dicionário Houaiss, o maior do país, está na mira da patrulha politicamente correta, que acredita lutar contra o preconceito apagando palavras e definições.

Dicionário, diz o Aurélio, é o “conjunto de vocábulos duma língua ou de termos próprios duma ciência ou arte, dispostos, em geral, alfabeticamente, e com o respectivo significado”. Dicionário é o celeiro do idioma, o banco central da linguagem formado por palavras compiladas segundo um único critério, o de estarem em uso ou terem sido usadas no passado.

Censurar ou podar palavras dos dicionários é uma estupidez que se equipara à loucura de rasgar dinheiro por ser contra o capitalismo ou ao desatino de queimar florestas nativas para matar serpentes venenosas.

Pois foi exatamente isso que o procurador da República Cleber Eustáquio Neves, do Ministério Público Federal de Uberlândia, em Minas Gerais, tentou ao ajuizar uma ação civil pública pedindo a remoção das livrarias do dicionário Houaiss, o mais completo do país, com 228 500 verbetes, publicado pela editora Objetiva.

 

Procurador acolheu um pedido bizarro

Neves deu guarida a um pedido bizarro feito em 2009 por uma pessoa que sustentava que duas definições da palavra “cigano”, mesmo que devidamente registradas no dicionário como sendo de uso pejorativo, são ofensivas à etnia e devem ser banidas.

Enquanto isso não fosse feito e novas edições devidamente “higienizadas” do dicionário não fossem produzidas, o Houaiss deveria ser retirado das livrarias, e sua venda, proibida. O Houaiss registra que, pejorativamente, cigano é “aquele que trapaceia; velhaco, burlador” e “aquele que faz barganha, que é apegado ao dinheiro; agiota, sovina”.

Pode incorrer em preconceito quem utiliza a palavra cigano nas acepções acima, mas incorre em um desvio muito pior quem propõe censurar esses registros por seu potencial ofensivo.

Empobrecer o idioma é um dos instintos automáticos das mentes totalitárias.

No livro 1984, de George Orwell, um Ministério da Verdade se dedica justamente à supressão das palavras consideradas inadequadas pelos ditadores e à sua substituição por termos novos criados justamente para suprimir a verdade.

 

“Assassinando a cultura brasileira”

“Quem pede a suspensão de uma obra por ela conter um termo considerado discriminatório está assassinando a cultura brasileira, que a cada dia é torpedeada por novas empreitadas da patrulha do politicamente correto”, diz o imortal Evanildo Bechara, membro da comissão de lexicógrafos — como são chamados os fazedores de dicionários — da Academia Brasileira de Letras.

Dicionários de outras editoras, como a Melhoramentos e a Globo, há dez anos suprimiram a informação de que a palavra “cigano” foi usada no passado com sentido pejorativo. Diz Breno Lerner, superintendente da Melhoramentos, responsável pelo dicionário Michaelis, que é contra a intervenção do procurador: “À medida que a sociedade se torna mais politicamente correta, cabe ao dicionário retratar isso com o maior rigor possível. É como a fotografia de uma paisagem — se a paisagem muda, é nosso dever fazer um novo retrato, com a maior exatidão”.

Nos tempos da KGB, polícia política da ditadura soviética, quando um político ou uma celebridade caía em desgraça com a liderança do Partido Comunista, sua figura era simplesmente apagada das fotografias antigas, uma flagrante falsificação da história.

A hierarquia católica, em momentos de puritanismo exacerbado, mandou cobrir as partes pudendas dos anjos e de outras figuras mostradas em majestosa nudez por mestres da pintura. Entre os censurados pelos prelados em guerra com os pelados esteve o grande Michelangelo. É saudável, portanto, reprimir a tentação de servir ao gosto presente simplesmente suprimindo e escondendo imagens, palavras ou dados que foram aceitáveis no passado a ponto de serem registrados para o desfrute das gerações vindouras.

 

 

A resistente tentação de reescrever o passado

O diretor-geral da Objetiva, que edita o Houaiss, Roberto Feith, não concorda com a tese de que a maneira de se atualizar passe pela higienização do conteúdo dos dicionários e de outras obras literárias ou culturais.

Os dicionaristas do Houaiss pretendem refletir as mudanças na paisagem mencionadas por Breno Lerner, não suprimindo dados do passado, mas acrescentando informações relevantes para o presente. No caso de “cigano”, as próximas edições vão informar que as definições ofensivas “resultam de antiga tradição europeia, pejorativa e xenófoba”.

A tentação de reescrever o passado é resistente. Há mais de dez anos, outra ação contra o Houaiss tentou apagar a definição pejorativa de judeu como “pessoa usurária, avarenta”. Sem sucesso. Em 2010, o Conselho Nacional de Educação condenou a obra de Monteiro Lobato, o maior autor infantil brasileiro, por ela dar vazão ao racismo.

Concebido para facilitar a comunicação entre pessoas que falavam línguas diferentes, o primeiro dicionário de que se tem notícia é o Elya, do século III a.C., com 2 094 palavras.

No Brasil, o pioneiro foi o do carioca Antonio de Moraes Silva, em 1789, o Diccionario da Lingua Portugueza, baseado em uma obra publicada em Portugal pelo padre inglês Rafael Bluteau.

Os dicionários costumam ser revistos por equipes de lexicógrafos a cada cinco ou dez anos, quando se montam novas edições que incluem palavras incorporadas ao idioma (exemplos no novo Houaiss:“blogosfera”, “tubaína”, “blogar”, “pitaco”, “empoderamento”).

Resume o acadêmico Bechara: “O dicionário tem a função de ser o espelho vivo da língua, o repertório da memória cultural e histórica do idioma”.

(Luís Guilherme Barrucho. VEJA. 07/03/2012)

 

Texto II

Vamos queimar os dicionários

Quando a gente pensa que já viu tudo, não viu. Faz algum tempo, dentro do horroroso politicamente correto que me parece tão incorreto, resolveram castrar, limpar, arrumar livros de Monteiro Lobato, acusando-o de preconceito racial, pois criou entre outras a deliciosa personagem da cozinheira Tia Nastácia, que, junto com Emília e outros do Sítio do Picapau Amarelo, encheu de alegria minha infância. Se formos atrás disso, boa parte da literatura mundial deve ser deletada ou “arrumada”. Primeiro, vamos deletar a palavra “negro” quando se refere a raça e pessoas, embora tenhamos uma banda Raça Negra, grupos de teatro Negro e incontáveis oficinas, açougues, borracharias “do Negrão”, como “do Alemão” “do Portuga” ou “do Turco”. Vamos deletar as palavras. Quem sabe, vamos ficar mudos, porque ao mal-humorado essencial, e de alma pequena, qualquer uma pode ser motivo de escândalo. Depende da disposição com que acordou, ou do lado de onde sopram os ventos do seu próprio preconceito.

Embora meus ·antepassados tivessem vindo ao Brasil em 1825, portanto sendo eu de muitas gerações de brasileiros tão brasileiros quanto os de todas as demais origens, na escola havia também a turminha que nos achacava com refrãos como “Alemão batata come queijo com barata”. Nem por isso nos odiamos, nos desprezamos. Eram coisas infantis, sem consistência. O que vemos hoje quer mudar a cara do país, ou da cultura do país, e não tem nada de inocente.

Um dos negros que mais estimei (no passado, porque morreu), ligado a mim por laços de família, era culto, bom, interessante, nossos encontros eram uma alegria. Com ele muito aprendi, sua cultura era vasta. A cor de sua pele nunca me incomodou, como, imagino, não o aborreciam meus olhos azuis. Havia coisas bem mais positivas e importantes entre nós e nossas famílias. Não vou desfilar casos com amigos negros, japoneses, árabes, judeus, seja o que for. Mas vou insistir no meu escândalo e repúdio a qualquer movimento que seja discriminatório, que incite o ódio de classes ou o ódio racial, não importa em que terreno for.

Agora, de novo para meu incorrigível assombro, em um lugar deste vasto, belo, contraditório país que a gente tanto ama, desejam sustar a circulação do Dicionário Houaiss, porque no verbete “cigano” consta também o uso pejorativo – que, diga-se de passagem, não foi inventado por Houaiss, mas era ou é uso de alguns falantes brasileiros, que o autor meramente, como de sua obrigação, registrou. Ora, para tentar um empreendimento desse vulto, como suspender um dicionário de tal peso e envergadura, seria preciso um profundo e preciso conhecimento de linguística, de lexicografia, uma formação sólida sobre o que são dicionários e como são feitos.

O dicionarista não inventa, não acusa nem elogia, deve ser imparcial – porque é apenas alguém que registra os fatos da língua, normalmente da língua-padrão, embora haja dicionários de dialetos, de gírias, de termos técnicos etc. Então, se no verbete “cigano” Houaiss colocou também os modos pejorativos como a palavra é ou foi empregada, criticá-lo por isso é uma tolice sem tamanho, que, se não cuidarmos, atingirá outros termos em outros dicionários, com esse olhar rancoroso. Vamos nos informar, antes de falar. Vamos estudar, antes de criticar. Vamos ver em que terreno estamos pisando, antes de atacar obras literárias ou científicas com o azedume de nossos preconceitos e da nossa pequenez ou implicâncias infundadas. Há coisas muito mais importantes a fazer neste país, como estimular o cuidado com a educação, melhorar o atendimento à saúde, promover e preservar a dignidade de todos nós.

Ou, numa mistura maligna de arrogância e ignorância – talvez simplesmente porque não temos nada melhor a fazer -, vamos deletar as palavras que nos incomodam, os costumes que nos irritam, as pessoas que nos atrapalham e, quem sabe, iniciar uma campanha de queima de livros. De autores, seria um segundo passo. E assim caminhará para trás, velozmente, o que temos de humanidade.

(LUFT, Lya. Veja 14/03/2012)

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Uma resposta

  1. Meu professor me passou essa proposta e estou com dificuldade de trabalhar sobre ela. Tem como alguém me ajudar? Fazendo favor

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